quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Coincidencia ou parte de um projeto?


“Quando Mardoqueu recebeu a resposta de Ester, mandou dizer-lhe: Não pense que pelo fato de estar no palácio do rei, você será a única entre os judeus que escapará, pois, se você ficar calada nesta hora, socorro e livramento surgirão de outra parte para os judeus, mas você e a família do seu pai morrerão. Quem sabe se não foi para um momento como este que você chegou à posição de rainha?” (Ester 4.12-16)
A Bíblia declara Deus como o “soberano de toda a terra”. Nada do que acontece está fora do controle de Deus, ainda que muitas pessoas entendam de forma diferente. De um lado a visão de seres limitados; do outro, o conhecimento de um Deus onisciente. Nenhum fio de cabelo cai da nossa cabeça sem a permissão dEle. Mesmo as coisas que acontecem e tomam um rumo totalmente desfavorável a nós, no final acabarão contribuindo para que tenhamos pleno sucesso. Deus usa as circunstâncias para nos levar ao lugar da nossa vitória. Foi assim na vida de Ester. Também é assim na nossa vida.

O livro de Ester chama a atenção pelo fato do autor não citar o nome de Deus em toda a sua narrativa. Mas é justamente nesta característica – da ausência de qualquer tipo de oração ou referência a Deus – que o autor ressalta que Deus está no controle de todos os acontecimentos da história. Os fatos acontecidos deixam bem claro que é Ele quem controla e dirige tudo que acontece, até mesmo coincidências que poderiam ser classificadas como insignificantes como as que vamos ver a medida que avançamos neste comentário.

A longa guerra entre o bem e o mal teria mais um desfecho no decorrer da vida de Ester. Deus como conhecedor do futuro, pôs em execução o projeto para neutralizar a tentativa do diabo de destruir o povo judeu para assim impedir a salvação da humanidade. Ester, desde o seu nascimento era escolhida por Deus para ter parte no plano de redenção da humanidade. Quando Mardoqueu indaga Ester se não era para um momento como aquele - em que o povo judeu estava em sérias dificuldades - que ela havia chegado ao posto de rainha, confirma a intervenção de Deus no decorrer dos acontecimentos quando estes começavam a tomar um rumo totalmente desfavorável ao povo judeu.

Além de ter sido o pai adotivo de Ester, Mardoqueu acabou envolvendo-se na longa guerra entre judeus e amalequitas. Por terem atacado Israel logo após a fuga do Egito (Êxodo 17.8-16), o Senhor faria guerra contra os amalequitas de geração em geração (Êxodo 17.16). Cerca de 960 anos depois, a guerra tem outro capítulo.

O plano de Deus em relação ao povo judeu era proporcionar por meio deles a salvação da humanidade. Jesus nasceu judeu, portanto, a salvação vem dos judeus. Mas Deus como conhecedor de todas as coisas, sabia que no futuro haveria várias tentativas por parte do diabo de tentar exterminar o povo judeu para que o seu plano redentor fosse frustrado. Deus tratou então de proteger o seu povo.

Muitos anos antes de Mardoqueu mandar à rainha Ester o recado que está escrito no texto básico deste comentário, sabedor do perigo que o povo judeu estava para correr futuramente, Deus já começa a preparar o terreno para a execução final do seu plano. Para ser mais exato, 8 anos antes. Entre a preparação, podemos citar três acontecimentos:
- a deposição da rainha Vasti;
- a coroação de Ester como rainha em seu lugar;
- Mardoqueu descobre uma conspiração para matar o rei.

O próprio Deus afirma isso em Jeremias 29.11 quando diz: “Porque sou em que conheço os planos que tenho para vocês, diz o Senhor”. O seu plano é a sua prioridade.

No decorrer da nossa vida acontecerão coisas que não vamos entender porque estão acontecendo, mas a Bíblia nos afirma que tanto o amor de Cristo (Efésios 3.19), quanto à paz de Deus (Filipenses 4.7), estão além da nossa compreensão. Enquanto a nossa mente é finita, o amor e a sabedoria de Deus são imensuráveis. Por isso excede todo o entendimento. E, se excede todo o entendimento, significa que acontecerão coisas que não entenderemos.

Por ser Onisciente, Deus vê todo o futuro como um presente eterno. Ele chama a existência às coisas que ainda não existem como se já existissem. Ele tem diante de si a visão das coisas como foram, como são, como serão e até mesmo como seriam se determinadas situações fossem levadas em frente num determinado acontecimento passado. Ele não precisa estudar a história para aprender. Ele conhece toda a história. E por conhecer a história e saber o que é melhor para nós é que ele permite certos acontecimentos na nossa vida, ainda que causem tristezas, ainda que causem perda ou até mesmo uma derrota – o que faz com que muitas pessoas cheguem a duvidar do amor dEle -. Por ser Deus, Ele tem o poder para extrair do mal o bem e fazer com que tudo, tudo mesmo, coopere para a nossa vitória.

Por sabermos que Deus tem o controle de todas as coisas em suas mãos, essa mesma paz, que vai além do nosso entendimento, guardará o nosso coração e mente em Cristo Jesus (cf. Filipenses 4.7). A palavra paz é citada em torno de 88 vezes em o Novo Testamento e significa a tranqüilidade da alma (Salmos 4.8), pois ela vem de Cristo (Lucas 2.14; 12.51 e João 14.27) e é resultado da fé (Isaías 26.3 e Romanos 5.1), da obediência (Gálatas 6.16) e da justiça (Tiago 3.18). Quem tem essa paz entrega seus cuidados a Deus em oração e descansa sabendo que Ele tomará providências em todas as coisas.

Essa paz é resultado da confiança que por sua vez é fruto do conhecimento que temos de Deus. Quanto mais conhecermos a Deus, mais nós vamos confiar nEle. E essa confiança só é adquirida quando passamos a ter intimidade com o Senhor. Quanto mais íntimos do Senhor, mais conhecimento teremos dEle.

A permissão do sofrimento na vida do crente é para desafiá-lo a confiar plenamente no Senhor. Só confia quem conhece o Senhor. Mardoqueu mesmo tendo vestido pano de saco e cinza, confiava plenamente na providencia de Deus, haja vista as palavras que ele disse para Ester que se ela ficasse calada socorro e livramento viria para os judeus. As dificuldades enfrentadas pelos judeus no livro de Ester lhes possibilitaram ter uma visão melhor do Senhor. As dificuldades que enfrentamos na nossa vida fazem o mesmo conosco. Deus não se agrada em ver alguém sofrer, porque o sofrimento é conseqüência da queda do homem no jardim do Éden, mas Deus usa o sofrimento, ou as circunstâncias, para nos conduzir ao caminho da vitória.

Quando o apóstolo escreveu que “Deus age em todas as coisas”, devemos entender que Deus não é o agente que provoca “todas as coisas”, mas sim que ele age ou interfere nos acontecimentos para que o resultado final redunde em bênçãos para os que o amam e são chamados de acordo com o seu propósito. Ele é o “Observador” atento a tudo o que acontece com nós e com aqueles que nos rodeiam e está pronto a interferir sempre que os acontecimentos na nossa vida tendem a sair do nosso controle ou tomar um rumo prejudicial a nós. É por essa razão que o apóstolo Paulo escreveu afirmando que “Deus age em todas as coisas”, e aí estão incluídas tanto as boas como as más.

Muitos acontecimentos são conseqüências das nossas próprias escolhas e eles acabam se direcionando para um final de insucesso. É nesta hora que Deus, como conhecedor do futuro, age para que as circunstâncias concorram para que no final sejamos vitoriosos e os seus propósitos cumpridos. Para melhor entendermos o que estou dizendo, vou usar como exemplo o que aconteceu na vida de um personagem do livro que ora comento: Hamã! Não foi Deus quem provocou a morte de Hamã. Ela foi conseqüência de seus próprios atos ainda que Hamã fosse um amalequita e que estava escrito que o Senhor “faria guerra contra os amalequitas de geração em geração” (Êxodo 17.16). Deus não teria se envolvido se Hamã não tivesse se tornado inimigo do propósito maior de Deus.

Vejamos: Hamã foi promovido pelo rei Assuero que lhe deu “uma posição mais elevada do que a de todos os nobres do palácio real” (cf. Ester 3). Adquiriu prestígio e obteve sucesso no que fazia. Entrementes, ficava irado pelo fato de que Mardoqueu - um judeu, que segundo estudiosos também tinha um alto cargo no serviço público do império - não se curvava e nem se prostrava diante dele. Em vez de se alegrar com o sucesso obtido junto ao rei, Hamã tratou de fazer uso do prestígio que sua elevada posição lhe conferiu num ardiloso plano de vingança pessoal depois que descobriu a origem de Mardoqueu. A longa inimizade entre judeus e amalequitas foi o ponto de partida para a elaboração do plano de Hamã. Inimizade essa que fazia com que Mardoqueu se negasse a prestar reverência a Hamã.

Hamã achou que matar Mardoqueu era pouco. Decidiu então exterminar o povo de Mardoqueu em todo o império de Xerxes. A posição de Hamã lhe dava acesso ao rei e usando o seu prestígio aliado a astúcia, omitiu o nome do povo e misturou ardilosamente verdade com mentira (Ester 3.8) conseguindo assim a concordância do rei em assinar um decreto que ordenava o extermínio de todos os judeus e o saque dos seus bens. Tudo ia bem na vida de Hamã até o momento em que ele envolveu o povo de Deus na sua história.

Quando o decreto foi promulgado e o povo judeu viu o grande perigo que corria, começaram a clamar a Deus pelo livramento. Deus que já havia agido no episódio da nomeação de Ester como rainha e que até este momento estava observando o que Hamã fazia volta a agir novamente. O envolvimento do seu povo no plano vingativo de Hamã fez com que Deus agisse em favor deles para que o seu propósito maior, a salvação da humanidade por meio de um judeu não fosse ameaçada.

Podemos dividir em três partes a execução do plano de Deus:

- Primeira parte:
O que dá partida inicial à execução do plano de Deus é o decreto assinado pelo rei: “Assim, no décimo terceiro dia do primeiro mês os secretários do rei foram convocados. Hamã ordenou que escrevessem cartas na língua e na escrita de cada povo aos sátrapas do rei, aos governadores das várias províncias e aos chefes de cada povo. Tudo foi escrito em nome do rei Xerxes e selado com o seu anel. As cartas foram enviadas por mensageiros a todas as províncias do império com a ordem de exterminar e aniquilar completamente todos os judeus, jovens e idosos, mulheres e crianças, num único dia, o décimo terceiro dia do décimo segundo mês, o mês de adar, e de saquear os seus bens. Uma cópia do decreto deveria ser publicada como lei em cada província e levada ao conhecimento do povo de cada nação, a fim de que estivessem prontos para aquele dia” (Ester 3.12-14). Envolve os cap. 3, 4 e 5.1-8

- Segunda parte:
A parte intermediária do plano de Deus começa quando Hamã fica irado novamente e manda construir uma forca para matar Mardoqueu antes mesmo do extermínio dos judeus (cap 5.9-14). Quando tudo parecia tenebroso, desencadeiam-se coincidências aparentemente sem valor nenhum que são o pano de fundo para a execução final do plano de Deus (cap. 6):


a - O Barulho na noite: Feliz por ter sido honrado pelo rei e único a ser convidado pela rainha Ester para acompanhar o rei ao banquete que ela ofereceu, Hamã ainda assim não se sentia satisfeito. Irado contra Mardoqueu e incentivado pela sua mulher e também pelos amigos, Hamã não espera pelo amanhecer e naquela mesma noite manda construir uma forca de vinte metros de altura para executar Mardoqueu. Ele não sabia com esta atitude estava contribuindo para a sua queda. O barulho dos operários trabalhando chega ao quarto do rei.

b - A insônia do rei: “Naquela noite o rei não conseguiu dormir, por isso ordenou que trouxessem o livro das crônicas do seu reinado, e que o lessem para ele. E foi lido o registro de que Mardoqueu tinha denunciado Bigtã e Teres, dois dos oficiais do rei que guardavam a entrada do Palácio e que haviam conspirado para matar Xerxes” (Ester 6.1,2).

- Terceira parte:
A parte final é quando o rei manda enforcar Hamã e promulga um decreto para que o povo judeu defenda-se (cap. 7, 8 e 9).